sexta-feira, 17 de julho de 2026

Francisco de Assis, o fascinante

 



Dois textos  de autores franciscanos  franceses: um frade menor e uma terceira franciscana.  Para nossa interiorização.

  1. Cântico do Irmão  Sol

 A  experiência profunda que se exprime no  Cântico é, na verdade,  experiência de  reconciliação do homem  com sua  “arqueologia” íntima.  Para nos  convencermos,  basta prestar atenção na tonalidade da obra.  Do começo ao fim do Cântico reinam luz e serenidade.  Não há traços de angústia,  sombra,  matriz  alguma de agressividade e amargura.  Os elementos cósmicos são todos eles  desvestidos de seu caráter ameaçador ou destruidor.  As imagens ancestrais do “senhor  Sol”  ou da “nossa mãe a Terra”, da água e do fogo, perderam seu aspecto  temível.  No Cântico oferecem  uma face simplesmente fraterna. O homem  que assim fraterniza  com os elementos não se sente mais sob sua dominação.  Não é esmagado  pela força que eles representam ou simbolizam.

Uma tão grande  serenidade ,  não nos esqueçamos,  acontece  no final da vida do Poverello.  Tal serenidade  faz transparecer  tranquilidade interior,  aceitação de si em profundidade, reconciliação  entre o espírito e as forças  turbulentas da vida.  Francisco não tem mais nada a temer  com respeito  às forças selvagens.  Ele não as destruiu, mas  domesticou-as.  O lobo  não seria símbolo da agressividade que existe em cada um  e que Francisco  soube torná-la fraterna,  transformando-a em força de amor?  Esta energia íntima,  a partir de então, faz parte de seu elã para o Altíssimo. Também é porta para a luz.  Não é ela que  ele canta nas imagens  do “irmão fogo, belo, jucundo e vigoroso e  forte”?

Francisco não  celebra somente as criaturas que manifestam força e exuberância,  como o sol, o vento, o fogo.  Canta os elementos que fazem sonhar  em profundidade de acolhimento: a água e a terra mãe.  Seu Cântico  é feito de alternância  de imagens viris e de imagens femininas.  A um elemento imaginado no sentido de  força e de ação,  corresponde outro pensado como  intimidade e  comunhão.  Essa alternância revela uma alma aberta  a todas as suas potencialidades.  O Cântico das  Criaturas se revela  como  a linguagem simbólica   de um  homem  plenamente reconciliado com sua  totalidade afetiva,  nascida de uma personalidade nova e plena onde todas as forças obscuras da vida e do desejo que atuam na luz.

A  visão fraterna da natureza  que se exprime  no Cântico das  Criaturas só é possível a partir dessa experiência íntima de reconciliação.  A natureza,  liberta de todo aspecto ameaçador e temível e terrível, completamente  transparente e luminosa,  não é mais simples sonho de poetas;  ela é  testemunho e espelho de um ser  no qual as forças do desejo e da vida estão unificadas e iluminadas num único e grande amor.  Uma consciência  dilacerada só tem condições de projetar  sobre o mundo  seu rasgão interior.  Uma consciência unificada e feliz percebe,  ao contrário, a unidade profunda e última dos seres.  Vê, canta e dá sua cooperação.

Certamente, a personalidade de Francisco era, no começo, mais  tumultuada,  menos unificada que a de Clara,  por exemplo. A riqueza de um ser se mede pela diversidade de tendências que o trabalham  e sua capacidade de integrá-las.  Esta unificação,  em Francisco, não se fez  sem crises e conflitos. Nada, no entanto, se perdeu da riqueza anterior.  No final,  tudo se apresenta unificado:  o sentido do concreto e  a força do sonho, o dinamismo da ação e o lirismo do contemplativo, o amor da pessoa viva,  do indivíduo  e do singular e a necessidade da comunhão cósmica.  Tudo isso faz  de Francisco  não somente um ser transbordante de vida, mas um maravilhoso intérprete  do esplendor humano.  Seu canto é verdadeiramente o canto  do homem  unificado e universalizado.

Não se conclui,  não se encerra um canto.  Faz-se necessário que ele cante   dentro de  nós.  Talvez seja mesmo urgente fazer um longo silêncio dentro de nós para escutar  o crescimento íntimo do homem  abrindo-se à sua dimensão total.  A mesma voz salta de uma criatura a outra.

    O que ela diz? Escutem:

Se  meu canto tem o esplendor  da manhã
–  Estejam certos-.
É que ele se ergue no finalzinho  da noite.

Se meu canto tem o esplendor da luz nascente,
é que nele é que nele todas as lágrimas da noite
brilham de repente  ao orvalho da madrugada.

Se meu canto tem a serenidade do  azul
é que ele atravessou  tempestades e raios mais violentos.
Nele  arde um fogo  finalmente claro e puro.

Se meu canto é aquele de todas as criaturas
é que ele é o canto  de uma imensa solidão.
O canto do peregrino  em busca  de uma estrela  única.

Se meu canto é o canto dos homens
É que ele foi mais forte do que todas
as violências e silencio.

É o canto de   todos os perdões.
Cego não vejo mais o sol
nem a brilhante superfície das coisas.
Ouço, no entanto, a criação inteira despertar dentro de mim.

Não temo a morte.
Em minha alma desnudada,  exposta aos ventos do Espirito,
passa o sopro do Gênesis.
Meu canto é o murmúrio  de uma  água
profunda  na fonte do desejo.
É torrente  que salta para sua Fonte
No coração de toda vida.

Éloi Leclerc, La fraternité em héritage, Éd.  Franciscaines,  p.144-148


Francisco de Assis, o fascinante - Carisma - Franciscanos Carisma - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Nenhum comentário:

Postar um comentário