sexta-feira, 17 de julho de 2026

Francisco, homem feito oração

 

Frei Almir Guimarães


Seguindo os passos de São Francisco, que se transformou “não só o orante, mas na própria oração”  (2Cel 95), removendo todos os obstáculos, “os irmãos sirvam, amem, honrem e adorem o  Senhor Deus de coração limpo e mente pura”, porquanto, é necessário orar sempre sem esmorecer, pois tais são os adoradores que o Pai procura  (Constituições  Gerais  OFM art. 10, § 2).

Assim como Jesus foi o verdadeiro adorador do Pai, façam da oração e da contemplação, a alma do próprio ser e do próprio agir  (Regra OFS, n. 8).

>>  Segundo Tomás de Celano, Francisco de Assis é a personificação da oração. Não era um orante, mas a própria oração. Dificilmente poder-se-ia ter encontrado uma fórmula mais feliz para descrever a dimensão orante de Francisco. É o homem do ininterrupto diálogo com o Senhor. Depois de sua conversão passa a viver na atmosfera de Deus. Percorre um longo e maravilhoso itinerário em seu relacionamento com Deus: há os suspiros profundos de insatisfação com sua vida quando é convocado a dirigir-se a novos horizontes;   percorre as planícies e vales onde estão os homens, seus irmãos, morando com eles, seus irmãos de vocação e de seguimento límpido do Evangelho; há essa comunhão amorosa de Francisco com o Senhor Jesus;  sua oração passa  pela exaltação da bondade  do Criador manifestada no sol e nas estrelas, na água e na mãe terra; oração de imensa intimidade atingindo seu píncaro mais denso e imperscrutável na configuração de  Francisco a Cristo Jesus no alto do Tabor franciscano que é o Alverne. Ali podia ele dizer com Paulo: “Já não sou eu que vivo. É Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Para Francisco, a oração significa, efetivamente, dar lugar a um Outro.

>> A oração é, efetivamente, um mistério. É experiência que se faz e não discurso que se profere. Tem muito a ver com amizade e amor. É relacionamento entre a fraqueza e a plenitude, o amante e a amada, o esposo e a esposa. Pela oração, o homem tenta aproximar-se do seu Senhor que é amor, fogo, exigência, fonte de vida, misericórdia, paz e  Francisco viveu o relacionamento com Deus como plenitude inebriante. Os louvores ao Deus altíssimo, escritos por Francisco no final de sua vida, no verso da  bênção dada a Frei Leão: “Vós sois o Forte… o Grande… o Altíssimo… a Delícia do amor…a Sabedoria… a Humildade… a Beleza, nossa eterna vida… (Louvores ao Deus Altíssimo). Curioso observar, que neste texto, escrito quase no final da vida do santo,   haja tão pouca alusão a Cristo. Nesses versos de louvor, sente-se  um transbordamento talvez não encontrado em outro místico da historia da Igreja. A impressão que se tem é que o Amante seduziu  o amado. A sedução foi tal que o biógrafo chegou a afirmar que o santo estava separado de Deus apenas pela parede da carne e procurava  estar  sempre presente no céu 9 (cf. 2Cel 94).

>> Desde o momento de sua conversão, Francisco é alguém que procura fazer espaço para a chegada de um Outro. Assim começou a ser trabalhado pelo Espírito. Michel Hubaut concebe a oração em São Francisco como abertura ao Espírito (cf. M. Hubaut, El camino franciscano (trad. Espanhola do original francês), Estela, 1984, p. 53-67). Foi fazendo lugar dentro de si para acolher um Outro e viver em função dele. Foi se dando conta que era preciso romper com anelos e desejos, ambições e projetos pessoais. O processo de conversão de Francisco é marcado por um período de vazio, de não sentido, de espera de algo que estava para acontecer, como realização de uma promessa de amor. Os dias longos passados na prisão de Perusa, a prolongada enfermidade, os sonhos que povoavam tumultuadamente seu interior foram levando Francisco do exterior para o interior, do aparente para o essencial, do ilusório para a verdade. Nessa época, Francisco vive na atmosfera das perguntas, questionamentos, insatisfações: “Que queres de mim? Que queres que eu faça? Por que esta insatisfação dentro de mim?” Tais questões são parecidas com aquelas que colocamos hoje no começo de nossa aventura espiritual.

>> Michel Hubaut ainda observa: “O Espírito o orienta rumo ao futuro imprevisto de Deus. Nele desperta uma “faculdade interior” e descobre que o homem é dotado de um “sentido interior” que a Bíblia chama de coração capaz de colocá-lo em relação com Deus. Se o homem experimenta dificuldade em relacionar-se com o  Senhor é porque perdeu o caminho de seu coração. Paulo, o apóstolo, fala do homem sem inteligência e obscurecido. Os grandes orantes foram sempre pessoas que se empenharam em visitar o seu interior a fim de que  lá encontrassem Alguém que andava querendo plenificar-lhes o coração. Os que desejam fazer esta experiência de plenitude despoja-se de tudo, toma distância da autossuficiência, renuncia a si mesmo. Sem esse vazio interior, vazio de si, não há possibilidade de chegada do Outro.

>> Éloi Leclerc mostra como Francisco começa a desprender-se das glorias humanas  e do desejo de prestígio. Nada o satisfaz. Aos poucos vai se dirigindo para regiões de “A partir desse dia (um pouco antes da conversão), inaugura-se na vida de Francisco um tempo de silêncio. Sim, uma imperiosa necessidade de silêncio toma conta dele. Procura afastar-se da agitação mundana e do mundo dos negócios. Esforça-se, segundo a expressão de Tomás de Celano, ‘por reter Cristo em seu interior’ (1Cel 6). A superfície do  mundo tão cheia de brilho não mais o atrai. Procura a profundidade de uma caverna ou  sombra de uma capela solitária nos campos. Lá acha o seu tesouro, diz ele. Passa nesses lugares horas a fio. Tornou-se um homem convocado pela profundidade” (E. Leclerc, Francisco de Assis. Retorno ao Evangelho, Petrópolis, p.35).

>> Quem reencontra o caminho do coração e se dirige às regiões da profundidade começa a empreender um novo êxodo ou empreende uma viagem como a de Abraão: deixa suas seguranças, sua parentela, a terra firme em que costuma pisar e se dirige a horizontes novos que serão indicados pela ternura do amor de Deus. O que pode então acontecer é mistério que está nas mãos e no coração de Deus. Certamente, maravilhas poderão acontecer se o que foi convidado tiver a coragem de despojar-se de si mesmo, de seus projetos para acolher a visita do Outro, do Inesperado.

>> Francisco experimentará durante toda a sua via uma imperiosa necessidade da oração silenciosa e de espaços de recolhimento. A vida e a trajetória de Francisco serão pontilhadas de lugares ermos e de eremitérios. Descobre o gosto pelo silêncio na vetusta e  arruinada capela de São Damião. Mais tarde, nesse lugar, as Clarissas viveriam intensíssima contemplação silenciosa. Os biógrafos assinalam à profusão esses espaços eremíticos: Poggio Bustone, Greccio, Fonte Colombo, Rivo Torto, Narni. Lugar de silêncio e de oração era o Alverne, ápice da vida de união de Francisco com o Altíssimo, monte da transfiguração dolorosa desse amante do Esposo.

>> Francisco sempre desejou com grande intensidade esta vida eremítica. Chegou mesmo a pensar que fosse esse o caminho que o Senhor queria que ele percorresse. Queria o retiro exterior nos bosques, nas fendas dos rochedos, nas capelas abandonadas. “Quando rezava nos matos e nos lugares desertos, enchia os bosques se gemidos, derramava lágrimas por toda a parte, batia no peito e, e achando-se mais escondido que num esconderijo conversava  muitas vezes em voz alta com  Respondia ao Juiz, fazia pedidos ao Pai, conversava com o amigo, brincava com o esposo”(2Cel  95).

>> Nestas longas e intermináveis jornadas de oração, Francisco foi acolhendo a visita do Espírito, um presente que ele mesmo, por suas próprias forças não podia se oferecer. A oração não é, em primeiro lugar, alguma coisa que fazemos, mas uma acolhida que oferecemos. O orante permite que Deus se aposse dele: “Quer andasse ou parasse, viajando ou residindo no convento, trabalhando ou repousando, entregava-se à oração, de modo que parecia ter consagrado a ela todo o seu coração e todo o seu corpo, toda a sua atividade e todo o seu tempo. Compenetrado destas verdades jamais desprezava por negligência qualquer visita do Espírito; mas ao contrário, sempre que elas se apresentavam, seguia-as cuidadosamente, e enquanto duravam, procurava gozar da doçura que lhe comunicavam” (Legenda Maior de Boaventura 10, 1-2).

Francisco não é mais dono de si, de sua história, de seu presente e de seu futuro. Está sempre se colocando nas mãos do Altíssimo esperando suas novas manifestações, sempre no universo da fé.  Forçosamente, o Deus Altíssimo dos cristãos se manifesta na pobreza e no aniquilamento de Cristo Jesus. Por isso, a “sequela Chriti” será caminho de amadurecimento de sua oração que vai se tornar “crística”.


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Quem é São Francisco?

 


Como qualquer homem, ele é grande e  frágil.  Sua conversão e  caminho de santidade  foram acontecendo gradualmente:  jovem imaginando seu futuro mundano,  transbordando  de ambição e  “escapando” de todo apelo do Senhor.  Homem  à beira estrada, vagueando, a caminho,  vereda  na qual alegrias, sofrimentos, dúvidas, confrontações, decepções, desafios  permanentes se entrechocam e ele  toma como modelo supremo sem jamais separar dele  “a humildade de Deus”,  aquela “Palavra  de Deus tomando  carne em nossa  humanidade e de nossa  fragilidade  escolhendo a pobreza” (2Carta aos Fiéis  4-5). Francisco toma com  modelo a humildade do amor  que se  faz servo.  Deixa seu raciocínio  terreno e  se prende  à fé.

Frade menor, aglutinador de homens e mulheres  tocados pelo evangelismo franciscano:  “Viver o Evangelho no seguimento de  Cristo”  quer dizer  acolher e  implementar a Boa  Nova,  em espírito de fraternidade.  Francisco se dirige à humanidade do mundo inteiro  do presente e do  futuro e pede mudança de vida,  perseverança  na  verdadeira fé  (RNB  23,7-11).  Figura crística, única  por seus estigmas,  mas homem até  seu último suspiro, Francisco, esse louco de Deus,  expropriou-se de si mesmo, corpo, alma, espírito  para se deixar  habitar plenamente pelo  Senhor.  “E façamos sempre  habitação e morada, para ele que é o Senhor Deus todo poderoso,  Pai,  Filho e  Espírito Santo (RNB 22, 27).

Francisco de Assis é também um profeta, um místico, um  teólogo digno de nota,  um evangelizador,  um apóstolo, um testemunha, um missionário,  um santo.  Não esqueçamos, no entanto, que ele é um  homem simples,   falível como cada um de nós e cuja imensa lucidez e fé convidam-nos a oitocentos anos e nos referir ao Evangelho.  Ele e somente ele pode  nos ajudar a responder  com confiança e coragem  aos desafios deste mundo.   Para todo  franciscano, o Evangelho é um livro de  formação  incontornável.

E a autora cita o Papa  Francisco:

“Jesus é o primeiro  e o maior evangelizador.  Em qualquer forma de evangelização, o primado  é sempre de Deus, que quis chamar-nos para cooperar  com ele  e impelir-nos com toda a força de seu  Espírito.  A  verdadeira  novidade é aquela que o próprio Deus  misteriosamente quer produzir, aquela que  Ele inspira,  aquela que Ele provoca, aquela que  Ele orienta e acompanha de mil e uma maneira.  Em toda a vida da Igreja, deve-se sempre manifestar que a iniciativa  pertence a  Deus,  porque ele nos amou primeiro  (1Jo 4,15) e só Deus é que faz crescer (1Cor 3,7).  Esta convicção  permite-nos manter a alegria no meio de uma tarefa tão exigente e desafiadora  que ocupa inteiramente a nossa vida. Pede-nos tudo, mas ao mesmo tempo nos dá tudo (Evangelii Gaudium, n. 12)

Como Francisco de Assis encara sua realidade?  Sem mentira, sem transgredir com  sua consciência.  No amor. A  vida é uma questão de prioridade e a prioridade é o amor.  Ele se deixa mudar e se alimentar desse amor e o retribui  generosa e gratuitamente.  De onde ele tira esta força? Colocando no centro da sua vida a celebração eucarística. Para Francisco, Palavra, celebração e vida, estas  três dimensões constitutivas da vida cristã,  estão estreitamente ligadas  e transparecem de modo natural em sua ação.  Sua força está no fato de ter recolocado  o mistério de Cristo  no centro de sua fé.  Deus se voltou para o homem: ele deu,  dá e se dá.  Francisco de Assis reencontra  o “mistério” (mistagogia)  caro aos Padres da  Igreja. Sua existência e sua espiritualidade  conduziram-no  a uma progressiva assimilação  e configuração ao mistério de Cristo.  Todo mistagogo  encontra seu sentido  colocando-se a serviço de Cristo –  o grande mistagogo   – e de sua obra.  Esta vem  ser a razão do êxito de São  Francisco  no testemunho da caridade.

François d’Assise, Le prophète  de l’extrême, Suzanne Giuseppi Testut  Nouvelle  Cité,  Bélgica, p. 24-26

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Francisco de Assis, o fascinante

 



Dois textos  de autores franciscanos  franceses: um frade menor e uma terceira franciscana.  Para nossa interiorização.

  1. Cântico do Irmão  Sol

 A  experiência profunda que se exprime no  Cântico é, na verdade,  experiência de  reconciliação do homem  com sua  “arqueologia” íntima.  Para nos  convencermos,  basta prestar atenção na tonalidade da obra.  Do começo ao fim do Cântico reinam luz e serenidade.  Não há traços de angústia,  sombra,  matriz  alguma de agressividade e amargura.  Os elementos cósmicos são todos eles  desvestidos de seu caráter ameaçador ou destruidor.  As imagens ancestrais do “senhor  Sol”  ou da “nossa mãe a Terra”, da água e do fogo, perderam seu aspecto  temível.  No Cântico oferecem  uma face simplesmente fraterna. O homem  que assim fraterniza  com os elementos não se sente mais sob sua dominação.  Não é esmagado  pela força que eles representam ou simbolizam.

Uma tão grande  serenidade ,  não nos esqueçamos,  acontece  no final da vida do Poverello.  Tal serenidade  faz transparecer  tranquilidade interior,  aceitação de si em profundidade, reconciliação  entre o espírito e as forças  turbulentas da vida.  Francisco não tem mais nada a temer  com respeito  às forças selvagens.  Ele não as destruiu, mas  domesticou-as.  O lobo  não seria símbolo da agressividade que existe em cada um  e que Francisco  soube torná-la fraterna,  transformando-a em força de amor?  Esta energia íntima,  a partir de então, faz parte de seu elã para o Altíssimo. Também é porta para a luz.  Não é ela que  ele canta nas imagens  do “irmão fogo, belo, jucundo e vigoroso e  forte”?

Francisco não  celebra somente as criaturas que manifestam força e exuberância,  como o sol, o vento, o fogo.  Canta os elementos que fazem sonhar  em profundidade de acolhimento: a água e a terra mãe.  Seu Cântico  é feito de alternância  de imagens viris e de imagens femininas.  A um elemento imaginado no sentido de  força e de ação,  corresponde outro pensado como  intimidade e  comunhão.  Essa alternância revela uma alma aberta  a todas as suas potencialidades.  O Cântico das  Criaturas se revela  como  a linguagem simbólica   de um  homem  plenamente reconciliado com sua  totalidade afetiva,  nascida de uma personalidade nova e plena onde todas as forças obscuras da vida e do desejo que atuam na luz.

A  visão fraterna da natureza  que se exprime  no Cântico das  Criaturas só é possível a partir dessa experiência íntima de reconciliação.  A natureza,  liberta de todo aspecto ameaçador e temível e terrível, completamente  transparente e luminosa,  não é mais simples sonho de poetas;  ela é  testemunho e espelho de um ser  no qual as forças do desejo e da vida estão unificadas e iluminadas num único e grande amor.  Uma consciência  dilacerada só tem condições de projetar  sobre o mundo  seu rasgão interior.  Uma consciência unificada e feliz percebe,  ao contrário, a unidade profunda e última dos seres.  Vê, canta e dá sua cooperação.

Certamente, a personalidade de Francisco era, no começo, mais  tumultuada,  menos unificada que a de Clara,  por exemplo. A riqueza de um ser se mede pela diversidade de tendências que o trabalham  e sua capacidade de integrá-las.  Esta unificação,  em Francisco, não se fez  sem crises e conflitos. Nada, no entanto, se perdeu da riqueza anterior.  No final,  tudo se apresenta unificado:  o sentido do concreto e  a força do sonho, o dinamismo da ação e o lirismo do contemplativo, o amor da pessoa viva,  do indivíduo  e do singular e a necessidade da comunhão cósmica.  Tudo isso faz  de Francisco  não somente um ser transbordante de vida, mas um maravilhoso intérprete  do esplendor humano.  Seu canto é verdadeiramente o canto  do homem  unificado e universalizado.

Não se conclui,  não se encerra um canto.  Faz-se necessário que ele cante   dentro de  nós.  Talvez seja mesmo urgente fazer um longo silêncio dentro de nós para escutar  o crescimento íntimo do homem  abrindo-se à sua dimensão total.  A mesma voz salta de uma criatura a outra.

    O que ela diz? Escutem:

Se  meu canto tem o esplendor  da manhã
–  Estejam certos-.
É que ele se ergue no finalzinho  da noite.

Se meu canto tem o esplendor da luz nascente,
é que nele é que nele todas as lágrimas da noite
brilham de repente  ao orvalho da madrugada.

Se meu canto tem a serenidade do  azul
é que ele atravessou  tempestades e raios mais violentos.
Nele  arde um fogo  finalmente claro e puro.

Se meu canto é aquele de todas as criaturas
é que ele é o canto  de uma imensa solidão.
O canto do peregrino  em busca  de uma estrela  única.

Se meu canto é o canto dos homens
É que ele foi mais forte do que todas
as violências e silencio.

É o canto de   todos os perdões.
Cego não vejo mais o sol
nem a brilhante superfície das coisas.
Ouço, no entanto, a criação inteira despertar dentro de mim.

Não temo a morte.
Em minha alma desnudada,  exposta aos ventos do Espirito,
passa o sopro do Gênesis.
Meu canto é o murmúrio  de uma  água
profunda  na fonte do desejo.
É torrente  que salta para sua Fonte
No coração de toda vida.

Éloi Leclerc, La fraternité em héritage, Éd.  Franciscaines,  p.144-148


Francisco de Assis, o fascinante - Carisma - Franciscanos Carisma - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

O que andamos fazendo de nossas vidas?

 



Para os que querem iluminar sua vida com a claridade de Francisco de Assis

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

1. Não há dúvida. O que importa é viver. Viver bem. Viver da melhor forma possível em todos os campos da existência. Viver bem: o ser homem e ser mulher, viver amizades e relacionamentos, ter alegria do que se faz, viver contentes e jubilosos com os dias de sol e com o cinzento da cerração. Viver como pai, como mãe, conviver com as pessoas sem interesses egoístas, mesquinhos, pequenos, mas gratuitamente, fazer festa quando é tempo de festa, e fazer luto quando é tempo de luto. Crescer como gente, crescer de verdade. Não se deixar apequenar no casamento, na convivências com os vizinhos, nos relacionamentos. Viver, conviver, viver com gosto de “quero mais”. Buscar uma maturidade humana. E também viver com uma “saudade” do Mistério. Desse Deus que não sabemos bem descrever. Ou mesmo nada sabemos dizer. Nosso coração é irrequieto enquanto não descansar nesse insondável Mistério. O esforço pela busca do verdadeiro rosto de Deus não devia nos abandonar. Viver é buscar aquele que nos inventou e nos ama sem limites.

2. Somos cristãos. Desde nossa infância fomos levados a ser católicos. Prefiro a palavra cristão. Sacramentos, missa, procissões, ladainhas, liturgia, terço. Tudo isso fez e faz parte de nossa vida. Sempre de novo, no entanto, somos chamados a nos interrogar sobre a qualidade de nosso ser cristão. O que é ser cristão? E hoje? Tudo mudou… Os tempos modernos pedem que sejamos discípulas e discípulos missionários. O Papa Francisco insiste que sejamos uma Igreja em saída, gente que se dirige às periferias existenciais para recolher os jogados à beira do caminho. Cristãos? Como formar nossa identidade cristã? Muito difícil responder a essa pergunta. Não paramos de nascer. Nunca acabamos de nascer para a fé. Nascer de novo, como foi dito a Nicodemos. Até que ponto crescemos em nossa vida cristã? A Ordem Franciscana Secular, de fato, nos ajuda a sermos cristãos? De verdade? Morrer ao homem velho, ter intimidade com o Evangelho, entrar num constante processo de conversão, temos uma vontade inaudita de espalhar nossa alegria de cristãos, não apenas de sermos certinhos em rezas e missas. Temos alegria em viver como cristãos? Temos interesse de ler autores de espiritualidade? Nunca tivemos a ideia de fazer uma vez por mês um tarde de estudos lendo juntos um livro sobre a fé, a esperança, a caridade e as coisas da nossa fé?

3. Francisco de Assis continua exercendo um grande fascínio. Não somente os cristãos sentem-se atraídos por ele, mas todos os homens e mulheres retos, de boa vontade. Ele andou inventando um jeito de ser cristão muito próximo do Evangelho. Há uma família franciscana que vive o Evangelho à maneira do Poverello e Clara. Frades, leigos e leigas, religiosas que se inspiram em Clara e tantas outras irmãs com espiritualidade franciscana. Vamos construindo a duras penas nossa identidade franciscana secular. Trabalho que não cessa: formação, retiro, dias de estudo, leitura, cultivo de uma delicadeza de consciência.

4. Os que ingressam numa das Ordens Franciscanas adotam um certo estilo de viver. Têm um gênero de vida marcadamente evangélico à maneira de Francisco. Importante frisar da OFS: leigos, fiéis cristãos leigos, leigos no mundo, no casamento, na vida de todos os dias, no caixa de um supermercado, com funcionário público. Leigo, quer dizer, não precisam se comparar a frades e freiras. Não precisam ocupar lugares nos altares da missas. Leigo é leigo, frade é frade. A Ordem é secular e deveria formar um laicato maduro inspirado no método do ver, julgar e agir.

5. Ponto importante é que, aos poucos, vamos tentando ganhar o jeito franciscano de viver. Antes de tudo somos pessoas que vivemos no mundo sem ser do mundo. Não nos adaptamos ao consumismo, à dinâmica do lucro, sempre lucro, do uso das pessoas como se fossem coisas. Entramos num processo de conversão: o doce fica amargo, e o amargo, doce. Somos penitentes. Não precisamos colocar cinza na comida, mas precisamos dobrar o orgulho, não berrar nossas vantagens, irmãos simples de todos os seres humanos. Temos uma vida de oração pessoal que vale a pena? Irmãos sem nariz arrebitado.

6. Não queremos e não podemos viver na casca das coisas. Precisamos visitar nosso interior para que não seja habitado pelo vazio, pela superficialidade. Vivemos o tempo da pressa, da rentabilidade, das sucessivas imagens e milhares de mensagens não se alojam em nós e ficamos meio vazios, certamente perdidos e, no fundo, insatisfeitos. Temos condições de introduzir a meditação em nosso viver? A introspecção? O cultivo do exercício do discernimento?

7. Alguns traços dos que aspiram a viver à luz de Francisco:

• O franciscano é cantor do Altíssimo e bom Senhor: contemplativo; cantor do sol e da lua, e dos irmãos da natureza, reflexos do Altíssimo.
• Os franciscanos sabem levar as coisas ao fundo do coração como Maria e Francisco.
• Optam por uma postura de simplicidade e despojamento.
• Não querem sobrepor-se aos outros.
• Marcados pela cortesia e cordialidade.
• Têm sensibilidade para o que é fraterno: amar com amor de mãe os de perto e os de longe.
• Experimentam tensão entre contemplação e vida ativa; vão pelo mundo mesmo com saudade das grutas.
• Exercitam-se na prática da desapropriação.
• Trabalham com denodo sem perder o espírito da oração.
• Desejam restaurar a Igreja a partir do amor por Cristo.
• São cuidadores e jardineiros da obra da criação.

8. Alguns valores humanos a serem cultivados:

Coragem, clareza do que é assumir compromisso, superar o universo dos melindres e susceptibilidade, capacidade de conviver com o diferente; saber olhar o que se passa à sua volta; espírito de serviço; senso de admiração sem “chiliques”.

9. Construir fraternidades com um clima de alegria. A alegria forma, passa confiança, acolhida alegre e não formal, criar espaços bonitos. Bom seria que pudéssemos convidar eventualmente jovens que cantassem novos cânticos e nos encantassem. Algumas vezes fazer encontros com filhos e netos sem muito formalismo.

10. Lembretes:

♦ Importância da qualidade da reunião geral, no melhor dia, no melhor horário, de forma que todos aproveitem;
♦ pontualidade nas reuniões, ter a delicadeza de justificar quando é necessário faltar;
♦ certos deveres familiares podem impedir a frequência regular: como fazer?
♦ pensar na qualidade do retiro anual e inventar tardes ou noites de reflexão e de oração;
♦ importância de uma leitura espiritual sobre nosso jeito de sermos cristãos franciscanos;
♦ ler e refletir em particular as orientações da Regra da Ordem Secular.

Preocupações

♦ Difícil tarefa de buscar novas vocações.
♦ Compreender o mundo de hoje e seus desafios e ser capaz de inventar o novo.
♦ Que contribuição efetiva podemos dar para que o Amor seja amado?
♦ O que fazer para que as pessoas possam dizer: vede como eles se amam?

Quatro pensamentos finais

♦ A vida espiritual é a vida na qual somos libertados pelo Espírito de Deus para que possamos desfrutar a vida em toda sua plenitude. Através do Espírito podemos “estar no mundo sem ser do mundo”; podemos agir livremente sem estarmos presos por falsos apegos; podemos falar livremente sem medo sem medo de não sermos aceitos e podemos viver em paz e alegria mesmo quando em meio ao conflito e à tristeza (Henri Nouwen).

♦ Em nossos tempos há necessidade de reforçar os valores no seio das comunidades da Igreja. O egoísmo, o egocentrismo, a obstinada insistência em fazer as coisas somente e sempre segundo nossas ideias, o mau uso do poder e dos bens, a sede de prestígio: todos esses sintomas de enfermidade espiritual não constituem uma prerrogativa somente da sociedade secular e da cultura de hoje. Somos seres humanos e somos Igreja. Por isso, a Igreja precisa sempre reformar-se. Começar por si mesma e depois trabalhar os outros. A Igreja convoca franciscanos e franciscanas seculares a realizar tudo isso. Os franciscanos e as franciscanas seculares estão mais intimamente envolvidos na sociedade em que vivem do que podem estar os religiosos (Manual para a Assistência Espiritual à OFS).

♦ Francisco nos convida a seguir o Cristo que nos revela quanto Deus pensa alto a respeito do ser humano, precisamente porque ele próprio veio percorrer os caminhos humanos para fecundar nossa humanidade, nosso coração, por meio de um amor criador e libertador e desta forma dilatar o horizonte do Reino de seu Pai. Os irmãos e irmãs de Francisco, em diferentes modalidades, são convidados a conquistar a liberdade interior do “peregrino em estado de êxodo” rumo ao Reino, a lembrar que a Igreja não existe para si mas para ser um caminho que orienta a humanidade na direção dos tesouros do Espírito de Deus: um Deus que, longe de nos desviar de nossos compromissos humanos lhes fornece, ao contrário, sentido e densidade. Francisco nos convida a inventar espaços de oração, de revigoramento espiritual, de ruminação da palavra, da partilha da vida e das preocupações de cada um (Michel Hubaut).

♦ O ser humano que fraterniza com todas as criaturas, comungando com o amor do Criador com a totalidade da sua obra, coloca-se ao abrigo da tentação de dominar seus semelhantes e de violentá-los de alguma forma. Nele as forças de vida se convertem num impulso de simpatia e de amor. Ele mesmo se humaniza humanizando a natureza. Torna-se à imagem do Criador, um senhor de doçura no próprio seio da criação (Éloi Leclerc).

 


O ciúme



O ciúme é a arma dos inseguros e dos que ainda não aprenderam a amar.
A confiança só se adquire com a certeza do amor correspondido.
A confiança e o ciúme são como o dia e a noite.
Se um deles reina, o outro não pode existir.
Ame com o coração, mas saiba colocar a razão na frente de seus pensamentos.





Iran Ibrahim Jacob

domingo, 7 de junho de 2026

Saudação às Virtudes

 Saudação às Virtudes

Ave,  rainha sabedoria,
o Senhor te salve com tua Irmã, a santa e pura simplicidade!
Senhora santa pobreza,
o Senhor te salve com tua Irmã, a santa humildade!
Senhora santa caridade,
o Senhor te salve com a tua Irmã, a santa obediência!
Santíssimas virtudes todas,
salve-vos o Senhor de quem vindes e procedeis!

Não há absolutamente em todo o mundo nenhum homem que possa ter uma de vós se antes não morrer.
Aquele que tem uma e não ofende as outras tem todas. E aquele que ofende uma não tem nenhuma e a todas ofende. E cada uma delas confunde os vícios e pecados.

A santa sabedoria confunde a satanás e todas as suas malícias. A pura e santa simplicidade confunde toda a sabedoria deste mundo e a sabedoria da carne. A santa  pobreza confunde a ganância e a avareza e os cuidados deste mundo. A santa humildade confunde a soberba e todos os homens que há no mundo e igualmente todas as coisas que há no mundo.

A santa caridade confunde todas as tentações diabólicas e carnais e todos os temores da carne. A santa obediência confunde todas as vontades próprias, corporais e carnais, e mantém o corpo mortificado para a obediência ao espírito e ao seu irmão e torna o homem súdito e submisso a todos os homens que há no mundo, e não somente aos homens, mas também  a todos os animais e feras, para que possam fazer dele o que quiserem, tanto quanto lhes for permitido do alto pelo Senhor.

São Francisco de Assis

Maria na mística Franciscana


Apresentação

Durante vários séculos a Igreja Católica dedicou todo o mês de maio para honrar a Virgem Maria, Mãe de Deus. A tradição surgiu na antiga Grécia. O mês de maio era dedicado a Artemisa, deusa da fecundidade. Algo semelhante ocorreu na antiga Roma, pois maio era dedicado a Flora, deusa da vegetação. Naquela época, celebravam os ‘ludi florals’ (jogos florais) no fim do mês de abril e pediam sua intercessão.

Na época medieval abundaram costumes similares, tudo centrado na chegada do bom clima e o afastamento do inverno. O dia 1º de maio era considerado como o apogeu da primavera.

Durante este período, antes do século XII, entrou em vigor a tradição de Tricesimum ou “A devoção de trinta dias à Maria”. Estas celebrações aconteciam do dia 15 de agosto a 14 de setembro e ainda são comemoradas em alguns lugares.

A ideia de um mês dedicado especificamente a Maria remonta aos tempos barrocos – século XVII. Apesar de nem sempre ter sido celebrado em maio, o mês de Maria incluía trinta exercícios espirituais diários em homenagem à Mãe de Deus.

Foi nesta época que o mês de maio e de Maria combinaram, fazendo com que esta celebração conte com devoções especiais organizadas cada dia durante todo o mês. Este costume durou, sobretudo, durante o século XIX e é praticado até hoje.

As formas nas quais Maria é honrada em maio são tão variadas como as pessoas que a honram.

As paróquias costumam rezar no mês de maio uma oração diária do Terço e muitas preparam um altar especial com um quadro ou uma imagem de Maria. Além disso, trata-se de uma grande tradição a coroação de Nossa Senhora, um costume conhecido como Coroação de Maio.

Normalmente, a coroa é feita de lindas flores que representam a beleza e a virtude de Maria e também lembra que os fiéis devem se esforçar para imitar suas virtudes. Em algumas regiões, esta coroação acontece em uma grande celebração e, em geral, fora da Missa.

Entretanto, os altares e coroações neste mês não são apenas atividades “da paróquia”. Mas, o mesmo pode e deve ser feito nos lares, com o objetivo de participar mais plenamente na vida da Igreja.

Deve-se separar um lugar especial para Maria, não por ser uma tradição comemorada há muitos anos na Igreja ou pelas graças especiais que se pode alcançar, mas porque Maria é nossa Mãe, mãe de todo o mundo e porque se preocupa com todos nós, intercedendo inclusive nos assuntos menores. Por isso, merece um mês inteiro para homenageá-la.

Fonte: ACI Digital | Imagem: Cimabue (1240, domínio público)

Bênção de São Francisco

 Bênção de São Francisco

O Senhor te abençoe e te guarde;

te mostre a sua face e tenha misericórdia de ti.

Volva para ti o seu olhar e te dê a paz.

O Senhor te abençoe!



sábado, 26 de setembro de 2020

São Francisco nas nuvens de Assis?





Uma bela imagem que lembra a famosa cena do Sermão aos Pássaros

A imagem de um
São Francisco nas nuvens de Assis, e que parece estar falando com os pássaros, está se espalhando na Itália e além. A foto, publicada nas páginas oficiais do Instagram e Facebook de “San Francisco de Asís”, está fazendo muito sucesso é recebendo um número crescente de likes, comentários e compartilhamentos.

A imagem de Christopher Wentworth, tirada em Assis, onde o fotógrafo americano reside, retrata uma nuvem que lembra a famosa cena do Sermão aos Pássaros, pintada por Giotto na Basílica Superior. A foto é uma cortesia de Christopher Wentworth. 


https://pt.aleteia.org/2020/09/25/sao-francisco-nas-nuvens-de-assis/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt

domingo, 19 de janeiro de 2020







Um dos episódios mais conhecidos da vida de São Francisco é o do lobo de Gúbio. Mais de uma fonte franciscana relatam o fato. Contam os biógrafos do santo que apareceu nos arredores da cidade de Gúbio um lobo que, em pouco tempo, aterrorizou toda cidade, devido à sua voracidade, devorando não só animais, mas, inclusive, homens e mulheres. Apesar das advertências dos habitan
tes, São Francisco resolveu encarar a fera.

Ao se aproximar do lobo, ordenou-lhe, em nome de Cristo, que não fizesse nenhum mal aos habitantes da cidade nem, tampouco, aos animais irracionais. Em contrapartida, prometeu-lhe que ninguém lhe faria qualquer mal. Disse, ainda, que, enquanto o lobo vivesse, lhe seria dado alimento pelos homens daquela cidade. Ditas essas coisas, São Francisco aproximou-se do lobo e lhe estendeu a mão. O lobo, por sua vez, ergueu a pata dianteira e colocou-a mansamente sobre a mão de São Francisco. Ante tal gesto, o santo entrou na cidade – pois seu encontro inicial com o lobo acontecera fora – e pediu aos presentes a garantia de que, doravante, alimentariam o lobo, afirmando que se colocava como fiador de que aquele observaria o pacto de paz, no que todos aquiesceram prontamente. Depois disso, São Francisco dirige-se ao lobo, conclamando-o a entrar com ele na cidade. Nos “Actos do bem-aventurado Francisco e seus companheiros”, assim é narrado o momento em que o pacto é selado:

“Então, todos os [que estavam] ali reunidos, com forte clamor, prometeram alimentar o lobo continuamente; e São Francisco, diante de todos, disse ao lobo: ‘E tu, irmão lobo, prometes observar o pacto com eles, a saber, de não lesar nem animal nem pessoa alguma?’ E o lobo, ajoelhando-se, com inclinação da cabeça e com gestos do corpo, e abanando a cauda e as orelhas, demonstrou a todos de maneira evidente que observaria os pactos prometidos”(p. 1172).

Quando se lê um relato como esse, é natural que se pense que São Francisco só conseguiu apaziguar o lobo porque era santo. Penso, porém, que, para entender o fato, deve-se assumir uma outra perspectiva de raciocínio. São Francisco conseguiu o feito não porque fosse santo. A santidade, na verdade, viria depois, como consequência. Ele conseguiu realizar o feito julgado por todos impossível por proceder de forma diferente. Foi tal forma de proceder que o levaria, depois, à santidade. A dica está na frase do relato: “…munido com o escudo da santíssima fé e com o sinal-da-cruz, começou a percorrer com constância o caminho [que era] duvidoso para os outros” (p. 1170). É isso o que caracteriza a santidade: a capacidade de, devido a uma fé inabalável, ousar percorrer com determinação um caminho que à maioria se afigura dúbio.

Historicamente considerado um "hippie medieval", Francisco largou a boa vida para dedicar-se aos pobres depois de ter ouvido o chamado de Deus. Popular, diplomático e fiel aos seus preceitos, ele escapou de ir para a fogueira e tornou-se um dos santos mais queridos da Igreja Católica, cuja data é celebrada nesta quinta-feira, 4 de outubro.... 


Francisco era João

Em julho de 1182 veio ao mundo aquele que se tornaria um dos santos mais populares do catolicismo, na cidade italiana de Assis. Em italiano, seu nome era Giovanni, que, se fosse traduzido para o português, seria João. O nome foi escolhido pela mãe, que era devota de São João Batista. Porém, o sucesso do pai, o nobre mercante de tecidos, Pietro Bernardone, se devia em grande parte ao fato de ter feito fortuna nos comércios da França e, por isso, acabou rebatizando o filho como Francesco (forma de se referir a "francês", em italiano)
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Rei do camarote

Até receber o chamado, Francisco usufruía e muito dos bens materiais proporcionados pela riqueza do pai. De acordo com biografia histórica escrita por Tomás de Celano, era um jovem fanfarrão, que não gostava de estudar ou trabalhar, se comportava como um verdadeiro playboy da Idade Média, adorava a vida mundana, era apaixonado por roupas caras e da moda, bebia sem moderação e usava linguagem chula, além de ter modos vulgares
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Prisioneiro de guerra

Ainda na juventude, Francisco entrou para o exército e participou de duas guerras. Na segunda, juntou-se aos guerreiros de Assis para ajudar os moradores da cidade de Perugia em um conflito. Quase todos os seus companheiros foram mortos, mas o futuro religioso sobreviveu e foi feito prisioneiro por um ano. Durante esse período, acabou contraindo malária e tuberculose, mas se recuperou e foi libertado após a intervenção do pai. Ele bem que tentou retornar para a luta, juntando-se à cavalaria de Assis, mas voltou a ter uma recaída por conta da malária e precisou desistir da ideia
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Imagem: Reprodução/Domínio Público

O chamado

Durante o período na prisão, segundo Tomás de Celano, Francisco passou a fazer reflexões e, após a liberdade, teve "surtos" de caridade, que o fizeram, inclusive, doar tecidos da empresa de sua família aos pobres, além de vender alguns a preços muito baixos para obter dinheiro para doações e restaurações de igrejinhas. Em 1182, ouviu o chamado de Deus, que lhe falou de um crucifixo, na igreja de São Damião, enquanto orava. Ao contrário de outros santos e do próprio Jesus, Francisco escreveu muito ao longo de sua história e deixou diversos relatos, por isso, é mais fácil entender sua trajetória de conversão. Em um deles, intitulado "Testamento", revela: "O Senhor concedeu a mim, irmão Francisco, que começasse a fazer penitência. Assim, quando eu vivia no pecado parecia-me muito amargo ver os leprosos, e o próprio Senhor conduziu-me entre eles e fui misericordioso"
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Imagem: Reprodução/Domínio Público

Nu com a mão no bolso

Acusado pelo pai de roubo, após vender tecidos do comércio da família, Francisco acabou preso no porão de casa, de onde foi salvo pela mãe. Ele, então, foi buscar ajuda em uma igreja, sendo perseguido pelo pai. Sem pensar duas vezes, retirou a roupa que vestia e entregou-a a Pietro, renunciando também à herança. Decidido a seguir na vida religiosa, ele prosseguiu em sua jornada. Segundo as crônicas medievais, ao abrir, aleatoriamente, por três vezes, as páginas do Evangelho, Francisco se deparou com versos que falavam sobre a caridade. Isso fez com que ele decidisse, não por uma visão mística, mas por motivações práticas, seguir sua vocação religiosa a fim de defender os mais fracos e opor-se às injustiças sociais, baseando-se, assim, no exemplo de Jesus. "Ninguém me mostrou o que eu deveria fazer, mas o Altíssimo mesmo me revelou que eu devia viver segundo a forma do santo Evangelho", revelou em seus escritos. Sua fé o fazia pensar em um Catolicismo renovado, sem hierarquias ou propriedades particulares, baseado apenas no Evangelho
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Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons

O sonho e os mendigos de Assis

Em 1208, ao reunir os primeiros discípulos, Francisco criou a ordem de frades e instituiu a "Forma di Vitta", que nada mais era que as regras a serem seguidas pelo grupo religioso. Esse era um passo muito importante para que a irmandade fosse aprovada pelo papa, pois, caso isso não acontecesse, seriam perseguidos até a morte. Contudo, suas normas eram tão rigorosas que o então papa Inocêncio III as considerou impraticáveis e mandou o religioso e seus companheiros pregarem aos porcos. Foi o que fizeram até retornarem junto ao pontífice cobertos de lama. O perseguidor inflexível dos hereges ficou impressionado e mudou de ideia sobre Francisco, especialmente após sonhar com o peregrino e interpretar isso como um sinal de que o religioso seria importante para a igreja. Ele teve sorte se comparado a outros pregadores da mesma época. Apenas uma década antes do nascimento de Francisco, Pedro Valdo foi preso na França, acusado de heresia, por pregar a volta à pobreza ao clero, que, na Idade Média, não queria saber de moderação de gastos
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Imagem: Reprodução/Cruz Terra Santa

Para, Pedro!

Em 1220, Francisco elegeu um de seus seguidores, Pedro Catani, para ser governador da ordem. Contudo, o homem morreu apenas cinco meses depois. O túmulo rapidamente tornou-se local de peregrinação, e os relatos de milagres começaram a se espalhar pela região, trazendo ainda mais interessados na irmandade. Com um número cada vez maior - e fora de controle - de fiéis, Francisco decidiu rezar para que Pedro parasse de fazer milagres
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Imagem: Reprodução/Paróquia Santo Agostinho

Estigmas

A ordem criada por Francisco cresceu rapidamente. Com isso, a igreja decidiu intervir e controlar o grupo. Diplomático e mantendo o acordo de obedecer à igreja, o religioso aceitou abandonar um pouco a rigidez que caracterizada a irmandade. Mas isso não agradava o futuro santo, pois não estava de acordo com tal visão espiritual. Opondo-se diversas vezes aos outros irmãos, que defendiam, cada vez mais, a burocratização do grupo, ele resolveu se isolar no monte La Verna, onde passou pela experiência mística da crucificação. Durante um jejum de 40 dias, para se preparar para as festas de São Miguel Arcanjo, em 29 de setembro, testemunhas relataram que um anjo deu ao santo as cinco chagas de Jesus Cristo
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Imagem: Diogo Moreira/Frame/Estadão Conteúdo

Protetor dos animais

Francisco batizou sua irmandade como Ordem dos Frades Menores (OFM). Sua ideia era que eles deveriam se sentir os últimos, mesmo em comparação às menores criaturas. Isso demandava desistirem do próprio "eu" em prol da importância do "outro". Foi só por meio do religioso que a mensagem de caridade do Evangelho voltou a ser falada, pois, até então, os pobres eram negligenciados pela igreja e pela sociedade. Francisco também defendia que para levar ajuda era preciso, primeiramente, respeitar a cultura local. Além disso, pregava o respeito a todas as criaturas, que para ele eram obras de Deus e a quem chamava de irmãos. "Tinha um amor enorme até pelos vermes, recolhia-os pelo caminho e os colocava em um lugar seguro, para não serem pisados pelos que passavam", descreveu Tomás de Celano
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Imagem: Reprodução/Mundo Educação

Criador do presépio

Didático e com voz calma, Francisco usava diversos recursos, como palavras, símbolos e gestos para transmitir os ensinamentos de Jesus Cristo ao povo. Em 1223, na cidade de Greccio, usou a manjedoura e figuras esculpidas para formar um presépio tal qual conhecemos hoje em uma gruta da região. A ideia surgiu durante uma de suas leituras e, diante da cena, o próprio santo celebrou a missa para o povo
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Imagem: Divulgação

Canonizado

Francisco morreu em 3 de outubro de 1226. Dois anos depois, foi declarado santo pelo então papa Gregório 9º e, no dia seguinte, o próprio pontífice colocou a pedra fundamental para erguer a Basílica de São Francisco de Assis, na cidade natal do religioso italiano
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Imagem: AFP

Papa

Quando Jorge Mario Bergoglio (o papa atual) foi eleito para assumir o posto à frente da igreja, em 2013, optou por ser o primeiro a adotar o nome de Francisco. Apesar de ser jesuíta - e não franciscano - o pontífice considerou o forte exemplo do santo ao homenageá-lo. Durante uma audiência com jornalistas, após ser escolhido o novo líder da Igreja Católica, o papa explicou a opção pelo nome: "Na eleição, eu tinha ao meu lado o arcebispo emérito de São Paulo, um grande amigo. Quando a coisa começou a ficar um pouco perigosa, ele começou a me tranquilizar. E quando os votos chegaram a 2/3, aconteceu o aplauso esperado, pois, afinal, havia sido eleito o Papa. [...] Ele me abraçou, me beijou e disse: 'Não se esqueça dos pobres'. Aquilo entrou na minha cabeça. Imediatamente lembrei de São Francisco de Assis"










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