terça-feira, 7 de junho de 2016

SÃO FRANCISCO DE ASSIS, UMA ARTE DE VIVER

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As circunstâncias de minha vida, principalmente a prova dos campos nazistas de Buchenwald e de Dachau, durante a última Guerra Mundial, levaram-me à pergunta sobre as possibilidades de uma verdadeira fraternidade entre as pessoas. Será que somos votados a dilacerar-nos sem fim, da maneira mais trágica? Será que é possível uma comunidade humana sem exclusão, sem tirania e sem desprezo? Não seria isto apenas um sonho? Nas minhas dúvidas, voltei-me para Francisco de Assis que me parecia o protótipo do ser humano fraternal, e cujo carisma foi em seu tempo “converter toda hostilidade em tensão fraterna, dentro de uma unidade de criação” (P. Ricoeur).
Mesmo correndo o risco de repetir-me, gostaria de resumir, da maneira mais límpida, o que me pareceu ser o essencial da sabedoria de Francisco de Assis.
Trata-se na verdade de uma sabedoria e de uma grande sabedoria. Francisco não é antes de tudo uma nova Ordem, nem uma nova doutrina, e muito menos um conjunto de regras de conduta. É uma arte de viver, uma certa presença ao mundo, uma nova qualidade de relação com Deus, com os homens e com toda a criação. É também um saber jovial, o segredo de uma alegria de viver sob o Sol de Deus, no meio de todas as criaturas.
Esta sabedoria me impressionou por duas razões: por sua profundidade e por sua extrema simplicidade. Falando de si mesmo, Voltaire dizia, não sem humor, que ele era “como os pequenos regatos, claros porque pouco profundos”. Não é o caso de Francisco de Assis. Ele é ao mesmo tempo simples e profundo. Sua
grande simplicidade não deve enganar-nos. Não vamos acreditar muito depressa que o compreendemos bem. “Não se compreende bem – dizia ele – senão aquilo que se experimenta por si mesmo”. E a experiência aqui envolve todo o ser. Ela é um crisol. Não se pode compreender a sabedoria de Francisco senão seguindo-o naquele caminho de simplicidade que o levou ao mais alto grau de despojamento.
No século XIII, numa Igreja que se tornara feudal e senhorial, na qual os bispos e abades, à frente de grandes domínios, eram verdadeiros soberanos que exerciam um poder temporal, Francisco de Assis encontrou, com o sopro inspirador da pobreza, o caminho da fraternidade. Renunciando a toda propriedade de bens e a todo poder, rejeitando tudo que podia colocá-lo acima das outras pessoas, ele apareceu como o irmão de todos, o amigo de todos, particularmente dos mais humildes. Inaugurou assim uma nova presença da Igreja no mundo.
A pobreza de Cristo que Francisco tanto amava, ele a escolheu e viveu como uma aproximação fraterna dos humanos, como um verdadeiro caminho de fraternidade com todos, sem exceção.

Este vínculo entre a pobreza e a fraternidade está no centro do ideal evangélico de Francisco e é um primeiro ponto essencial da sabedoria do santo de Assis. A experiência o comprova: a propriedade, a riqueza e o poder são fontes inesgotáveis de conflitos entre os homens. “Se tivéssemos posses – dizia Francisco – para protegê-las precisaríamos de armas?”. O mundo é um campo de luta pela riqueza, pelo poder, pela hegemonia. Os discípulos de Cristo devem evitar aparecer como uma nova espécie de competidores na corrida à riqueza, ao poder, às honras … Devem renunciar a toda posição dominante na sociedade e ir ao encalço dos humanos de mãos vazias, oferecendo-lhes apenas sua amizade. Uma amizade desinteressada, sem inveja e sem desprezo, feita de estima e de confiança. Só revelando esta nova qualidade de relação é que os mensageiros do Evangelho poderão anunciar o Reino de Deus. Pois o Reino é precisamente esta nova qualidade de relação entre os humanos: relação de paz, de justiça e de amor fraterno. Só um coração de pobre, isento de qualquer vontade de posse, é capaz de uma tal relação.
Neste caminho de pobreza e de fraternidade não tardaram a surgir as dificuldades. Francisco encontrou-as no próprio seio de sua Ordem, o que o levou a um despojamento cada vez maior de si mesmo. Foi então que experimentou o que é a “santa e pura simplicidade”.
A simplicidade franciscana não é a espontaneidade tão natural da criança. Ela é fruto de uma maturidade espiritual. Não somos originariamente simples, mas antes duplos, ou múltiplos. Quem não representa um personagem ou até vários ao mesmo tempo? Quem não se disfarça ou mascara? Mais profundamente, qual é a pessoa humana que não quer dirigir por si mesma sua própria vida segundo seu modo de ver, seus projetos, segundo o ideal de perfeição que forjou para si mesma? Ora, enquanto nos obstinamos em querer conduzir nossa vida por nós mesmos, não somos simples. Permanecemos sendo pelo menos duplos. Há Deus e nós. O ser humano não se torna verdadeiramente simples senão quando deixa de debater-se na barra de seu destino e se abandona totalmente a Deus.
A “santa e pura simplicidade” é fruto da disponibilidade interior, do despojamento que deixa inteiramente nas mãos de Deus a iniciativa de conduzir-nos a ele por seus caminhos. “Quando eras jovem – diz Jesus a Pedro – tu te cingias e ias onde querias. Quando envelheceres estenderás as mãos e será outro que te cingirá e te levará aonde não queres” (10 21,18).
Francisco fez esta experiência. Deixou-se despojar de toda vontade própria. Incompreendido, frustrado em seu ideal, teve que continuar apesar de tudo com seus irmãos, em vez de tornar-se inflexível e fechar-se na solidão e na amargura. Colocou acima de tudo a comunhão fraterna. Abriu-se assim a uma qualidade excepcional de relação. Nele, a relação fraterna tornou-se transparente, isenta de todo amor-próprio e de todo ensimesmar-se. Ele próprio tornou-se um claro espelho de Cristo. Podia escrever numa de suas Admoestações: “Aquele que prefere aturar perseguições a querer ficar separado de seus irmãos … ‘dá a sua vida pelos seus irmãos”.
tau

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domingo, 5 de junho de 2016

Sobriedade


"Quando buscamos com diligente sobriedade manter vigilância sobre nossas faculdades racionais, controlá-las e corrigi-las, como poderemos ter sucesso em tal tar...efa se não for concentrando nossa mente, a qual vive dispersa pelos sentidos, e trazendo-a de volta ao mundo interior, ao próprio coração, que é o armazém de todos os pensamentos?""Quando buscamos com diligente sobriedade manter vigilância sobre nossas faculdades racionais, controlá-las e corrigi-las, como poderemos ter sucesso em tal tar...efa se não for concentrando nossa mente, a qual vive dispersa pelos sentidos, e trazendo-a de volta ao mundo interior, ao próprio coração, que é o armazém de todos os pensamentos?"

São Gregório Palamas

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Oração por um doente

Oração por um doente
Senhor Jesus, aquele a quem ama está enfermo.
Tu podes tudo. Peço-te humildemente que lhe restituas a saúde.
Se forem, porém, outros os teus desígnios, peço-te que lhe concedas
a graça de suportar cristamente sua doença.
Nos caminhos da Palestina tratavas os doentes sem tamanha delicadeza,
que todos que todos acorriam a ti.
Dá-me esta mesma doçura, esse tato que é tão difícil ter quando se tem saúde.
Que saiba dominar meu nervosismo, para não acabrunhar o doente;
que eu saiba sacrificar uma parte de meus planos para acompanhá-lo, se este for seu desejo. Estou cheio de vida, Senhor, e Te dou graças, por isso.
Faça que o sofrimento dos outros me santifique, formando-me na abnegação e na caridade.
E que sempre, Senhor, se faça a tua santa vontade. Amém 

(M.N.Veleda)

O que recebi...

Senhor, é grande o que recebi
Senhor, como é grande o que recebi na vida,
Como é insignificante e pequeno o que tenho para dar.
Mesmo assim, quero dar esse pouco, que tenho.
Quero dá-lo com amor e alegria, com toda generosidade.
Sei que só Tu podes dar a fé,
Mas depende de mim ser um sinal para meu irmão.
Sei que só Tu podes dar o amor,
Mas depende de mim ser um atrativo para meu irmão.
Sei que só Tu podes dar a alegria,
Mas depende de mim ser um sorriso para meu irmão.
Sei que só Tu és o caminho,
Mas depende de mim ser um guia para meu irmão.
Senhor, quero dar meu aperto de mão,
Quero dar meu copo de água,
Quero dar algo de mim mesmo,
Valorizando o outro,
Colocando-me a serviço do outro,
Vivendo plenamente a paz e o amor.


(Michel Quoist)


Oração de expiação

Querido Senhor,
Que eu carregue a culpa,
a acusação ou o castigo dos outros
Tão pacientemente como se proviessem de mim.
Que eu obedeça silenciosamente quando me corrigem,
Confesse minha culpa humildemente e me emende alegremente.
Que eu não me apresse em buscar desculpas,
Mas que aceite a vergonha e a culpa ainda por
Aquelas faltas que não cometi.
Amém.

(São Francisco de Assis)

sábado, 30 de abril de 2016

Os 3 elementos de um sermão capaz de converter

Olhos, espelho e luz. E quem nos explica é o Pe. Vieira, diretamente do ano de 1655!
o semeador van gogh

Fazer pouco fruto a palavra de Deus no mundo, pode proceder de um de três princípios:
ou da parte do pregador,
ou da parte do ouvinte,
ou da parte de Deus.
Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando.
Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz.
Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos.
Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, e necessária luz e é necessário espelho.
O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento.
Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?
Pe. Antonio Vieira, Sermão da Sexagésima, 1655
Para ler completa esta obra-prima da pregação católica e da literatura em português, acesse-a em 

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Benefícios do jejum

O jejum nos leva a apreciar e sentir mais devagar, 
e de modo totalmente novo, a sutileza do comer. 
Quando, depois do jejum eu mastigo lentamente
uma fatia de pão, percebo como é bom o sabor do pão.
Eu sinto o gosto e aproveito a comida 
com alegria e gratidão renovadas. 
(Anselm Grün)